Figura de transição
*Por Paulo Kretly
Em todos os períodos históricos, em todas as épocas, nações e áreas de atuação sempre existiram – e continuam existindo – pessoas que quando confrontadas com sistemas, crenças, tradições e hábitos injustos e preconceituosos, decidem não se conformar. Impelidas por uma poderosa convicção e pela força dos princípios que norteiam suas vidas, elas não se detêm diante de pensamentos do tipo: “As coisas sempre foram assim”, ou “O que eu posso fazer sozinha?”, ou ainda “Fui criada dessa forma”. Essas pessoas se dispõem a enfrentar qualquer desafio ou oposição para fazer a parte que lhes cabe. Por mais remotas que pareçam ser as chances de vitória, elas persistem. Por maiores que sejam os obstáculos, elas continuam confiantes. Por mais intensa que seja a pressão, elas não se rendem. E por suas ações e atitudes, elas triunfam, mudando para melhor suas vidas e as de muitos outros. Sua influência positiva pode, em muitos casos, ir além de seu círculo familiar, estendendo-se para a empresa, para a comunidade, para o país, para o mundo e até mesmo para gerações futuras. Essas pessoas, nas quais denominamos figuras de transição, são exemplos porque não permitem que os deslizes aos quais todos estamos sujeitos se transformem em um padrão, nem deixam que as exceções se transformem em regra.
Não é possível ser uma figura de transição sem cultivar o espírito empreendedor, ou seja, sem buscar em si mesmo iniciativas criativas para solucionar problemas, atingir objetivos e transformar aspirações em projetos, projetos em realidade e a realidade em algo melhor. É dessa forma que uma figura de transição se transforma em uma força criativa e empreendedora em sua própria vida – e também nas vidas de outros. Afinal, em que altura da vida podemos dizer que nada mais temos a aprender? Se a pergunta for feita a uma figura de transição, a resposta será uma só: um enfático e categórico “nunca”. As oportunidades de aprendizado nos são oferecidas a cada momento, o tempo todo. Aprendemos com nossos pais e com nossos filhos, com nossos superiores e com nossos subalternos, com um grande erudito e com um mendigo que cruza nosso caminho, com um acontecimento feliz e com um infortúnio, com uma realização e com uma frustração, com uma derrota e com uma conquista. Aprendemos toda vez que nos damos ao trabalho de pensar sobre o que determinado momento nos trouxe, o que nos ensinou que ainda não sabíamos, o que nos mostrou a respeito dos outros e de nós mesmos, e que antes ignorávamos. E esse processo é tão longo quanto a vida.
Somos nós que fazemos nosso caminho ou nossa estrada já nos foi preparada antes mesmo de nascermos? Podemos moldar nosso destino ou nossa sina já está irrevogavelmente traçada? Responder a essas perguntas equivale a refletir sobre até que ponto somos responsáveis por nossos atos e escolhas, bem como por suas conseqüências. Sem dúvida, é muito sedutora a tentação de diluir toda essa responsabilidade e invocar causas e motivações genéticas, biológicas, sociais, psicológicas, econômicas, geográficas e muitas outras. Nesse caso, busca-se o apoio de uma linha de pensamento chamada determinismo. De acordo com o determinismo, nossas ações são determinadas por fatores alheios a nossa vontade. Do ponto de vista genético, o determinismo diz que temos uma predisposição para sermos como somos, para fazermos o que fazemos. Por isso, algumas pessoas dizem: “Isso é de família. Eu sou assim, meus avós eram assim, meus bisavós também...” O determinismo também pode ser psíquico. Nesse caso, somos vistos como pessoas irremediavelmente moldadas pelos pais e pelas experiências vividas na primeira infância, e isso determinará nossas vidas até o dia em que morrermos. Já o determinismo ambiental nos transforma em produto das influências que nos cercam: as condições econômicas e sociais, o trabalho, o chefe, o marido, a esposa... É o caso de pessoas que afirmam: “Como posso fazer algo diferente com o chefe que tenho?”, ou “De onde vim, as coisas são assim”, ou ainda “Não consigo ir para frente porque minha mulher nunca estimula meus projetos”. Da mesma forma, pode-se recorrer a explicações econômicas, históricas, geográficas, etc., etc.
Ora, é claro que todos esses fatores são importantes. Eles nos influenciam – e muito. Porém, ao contrário do que prega o determinismo, eles não precisam ser determinantes em nossas vidas. Enquanto o determinismo é visto cada vez mais como uma linha de pensamento limitada, e mesmo ultrapassada, ganha força entre os cientistas o Princípio da Incerteza, e uma das interpretações desse princípio é a que aponta o papel da consciência humana na determinação da realidade.
Entre o estímulo que recebemos e a resposta que damos a ele, existe um espaço no qual podemos nos valer da consciência para escolhermos a resposta que daremos. Acreditar que essa resposta seja automática e imutável é duvidar da própria capacidade humana de crescer e progredir. Não somos ratos de laboratório, que sempre reagem da mesma forma ao passarem por determinado ponto de suas gaiolas e levarem um choque elétrico. Podemos decidir não passar por aquele ponto onde levaremos o choque. Podemos saber que, se existem fatores predeterminados que influenciam nossas reações, cabe a nós adotarmos comportamentos e condutas que minimizem, ou até que eliminem, essa influência. Em vez de agir como se nossa vida estivesse determinada, temos a opção de assumirmos o controle e de sermos, nós mesmos, os programadores de nossas vidas. Essa é, em resumo, a grande lição que as figuras de transição nos ensinam: a de que nós também podemos ser figuras de transição e mudarmos para melhor o mundo a nossa volta.
* Paulo Kretly é presidente da empresa de consultoria FranklinCovey.