O importante é preservar suas crenças e valores
Não existe melhor motivação do que o exemplo. Os grandes comandantes da História, como Alexandre o Grande, Júlio César e outros, não obtiveram o total apoio de seus soldados somente mediante ameaças ou recompensas, nem venceram batalhas que pareciam impossíveis apenas por suas estratégias geniais. Sem o comprometimento total e irrestrito de seus exércitos, nenhuma estratégia genial surtiria efeito. E esse comprometimento só foi obtido porque os soldados realmente acreditavam que seus líderes personificavam os ideais de bravura e coragem que pregavam.
No trabalho, a história se repete. É impossível ser um bom líder sem ser também um exemplo para seus funcionários e colaboradores. Assim como os grandes generais que entraram para a história, o verdadeiro líder é aquele que motiva pela força de seu exemplo. Se um funcionário for motivado não só por suas expectativas pessoais, mas também pela admiração e lealdade que o chefe lhe inspira irá muito mais longe.
Contudo, cabe destacar que, por mais importante que seja servimos de exemplo para os outros, é essencial que sejamos um exemplo também para nós mesmos. Viver em desacordo com os valores nos quais acreditamos é extremamente nocivo para nossa integridade, constituindo o caminho mais rápido para afundarmos no estresse, na desmotivação, na perda de identidade e nas crises existenciais.
Um dos valores que mais prezo é a atenção com minha vida familiar. Ao longo de minha trajetória profissional, já me deparei com diversas ocasiões nas quais as circunstâncias me pressionavam a deixar esse valor de lado. Houve um período no qual trabalhei numa empresa onde o chefe, movido por sua própria desorganização e insegurança, forçava os funcionários a trabalhar muito além do horário necessário.
A situação chegou a um ponto culminante numa véspera de Natal, quando nos foi pedido que comparecêssemos para trabalhar até o meio-dia. Fiquei até o horário combinado e, ao me preparar para sair, fui informado de que os planos haviam mudado, e que deveria permanecer na empresa até o final do dia. Eu havia combinado com minha mulher e meus filhos que viajaríamos para passar o Natal na casa de parentes, e, por isso, saí do trabalho no horário inicialmente acertado, mesmo sabendo que seria demitido. E foi o que aconteceu logo depois, mas agi de acordo com minha consciência, e preservei um valor que é fundamental para mim: a família.
Passado algum tempo, encontrei outro emprego e a vida seguiu seu rumo. Continuei a crescer profissionalmente, sem que para isso tivesse de negligenciar minha mulher e meus filhos. Se tivesse aberto mão de meus valores para continuar naquele emprego, com certeza hoje eu seria uma pessoa frustrada, com uma vida familiar problemática e desorganizada. É uma crença comum acharmos que temos de fazer sacrifícios para atingirmos nossos objetivos. Mas é um erro pensarmos que isso inclui o sacrifício de nossos valores, a ponto de nos transformarmos em seres angustiados e incoerentes, cujas atitudes renegam nossas mais profundas convicções.
Paulo Kretly é presidente da FranklinCovey Brasil.
